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Carta aos padres da Arquidiocese de São Paulo - Cardeal Dom Odilo Scherer 
29/04/2010

Crédito: CNBB
São Paulo, 29.04.2010


A todos os Padres
que vivem na Arquidiocese de São Paulo

Estimados padres,

Escrevo-lhes no dia de Santa Catarina de Sena, ao completar 3 anos de posse como arcebispo de São Paulo. Mera coincidência, mas aproveito para lhes dizer que estou feliz na missão que Deus me confiou, embora a responsabilidade seja imensa e, muito, o trabalho! Mas, graças à ajuda generosa dos 6 bons bispos auxiliares da Arquidiocese e dos numerosos padres e diáconos, que colaboram de maneira corresponsável na vida e na missão desta abençoada Igreja, é possível levar avante a missão cada dia. Agradeço a colaboração esforçada de cada um e também a caridade de suas orações!

O ano sacerdotal vai chegando ao fim; espero que esteja sendo para todos uma ocasião para a renovação dos propósitos e da disposição em corresponder fielmente com o dom da vocação recebida: “fidelidade de Cristo, fidelidade dos sacerdotes!”  Faço votos  também que nas paróquias e comunidades tenham sido realizadas iniciativas para promover o apreço do povo pelo sacerdócio católico e um renovado interesse pelas vocações sacerdotais. As circunstâncias são estranhas: O Ano Sacerdotal, que deveria suscitar um maior apreço pelo sacerdócio católico, está sendo marcado pela ampla divulgação de uma série de dolorosos escândalos envolvendo sacerdotes. Em vez de apreço, talvez fique mais a impressão de desprezo pelo sacerdócio. E os padres todos sofrem por isso e se sentem humilhados... Pergunto-me, o quê Deus nos quer ensinar através dessas circunstâncias?!

Deixando de lado tantas análises já feitas nesses tempos, geralmente a partir de um horizonte diverso do nosso por não incluir o olhar da fé sobre o sacerdócio, creio que podemos afirmar: Deus está pedindo de todos os sacerdotes uma renovada “fidelidade” e a correspondência coerente com o dom recebido. Sendo ministros de Jesus Cristo, somos chamados a superar a distinção entre “função” sacerdotal e “vida privada”.  No olhar sociológico e da cultura deste mundo, somos considerados “funcionários de uma organização”, “gestores de ritos religiosos” e não importa muito a vida privada do sacerdote... Não assim, porém, na visão cristã e da Igreja. No rito da ordenação aparece uma expressão significativa: Pela sagrada ordenação somos “configurados com Cristo”; significa que não somos meros “funcionários” de uma instituição religiosa para realizar ritos, mas somos sacramentalmente representantes de Cristo Sacerdote e devemos traduzir em nossa vida pessoal essa “configuração” com Ele. O povo, que nos vê, deve poder perceber em nós e através de nós a ação de Cristo e nossa pessoa deve lembrar a pessoa de Cristo. Nosso sacerdócio não é simplesmente funcional, mas sacramental e, pela graça de Deus, envolve nosso ser inteiro.

Isso requer de nós uma renovada consciência de nossa identidade sacerdotal; somos sacerdotes de Cristo com toda a nossa pessoa e em todo o nosso ser. Por isso mesmo, somos chamados a nos exercitar nas virtudes e a crescer em santidade de vida. São Paulo dizia a todos os batizados: “Que pecado não reine mais em vosso corpo mortal, levando-vos a obedecer às suas paixões. Não ofereçais mais vossos membros ao pecado, como armas de injustiça. Pelo contrário, oferecei-vos a Deus, como pessoas que passaram da morte para a vida, e ponde vossos membros a serviço de Deus, como armas de justiça” (Rm 6,12-13). Isso vale tanto mais para nós, sacerdotes de Cristo! É necessário crescer em santidade mediante o cultivo da oração, da comunhão e da amizade com Deus; pela escuta e acolhida constante da Palavra de Deus, como bons discípulos de Cristo; na vivência da caridade pastoral para com todos, especialmente os preferidos de Deus. A vivência honesta e generosa do celibato faz parte da caridade pastoral e de nossa “configuração” com Cristo Sacerdote. Crescer em santidade inclui também a ascese, como exercício constante da “morte ao pecado”, da vigilância e da auto-disciplina, para não cair em tentação. Tentações de todo tipo é que não faltam para os sacerdotes! E o mundo nos cobra nesses tempos, de maneira direta e dura, o desleixo ou o abandono da seriedade na vida sacerdotal por irmãos, que deram escândalo. Mas o próprio Cristo também pediu que façamos resplandecer a luz recebida dele.

Quero recordar uma iniciativa pedida pelo Papa na abertura do Ano Sacerdotal: promover nas paróquias e comunidades da Igreja a oração e a adoração eucarística pela santificação dos sacerdotes e a frequente oração pelas vocações. Que essas boas iniciativas não sejam deixadas de lado, uma vez concluído o Ano Sacerdotal, mas se tornem permanentes em todas as comunidades. Afinal, diante da imensidão da messe à espera de operários, foi o próprio Jesus que insistiu com os discípulos: “pedi ao senhor da messe que envie operários para sua messe”. Isso soa como uma ordem para toda a comunidade cristã e devemos levá-la a sério! Pergunto, então: Na sua paróquia existe um trabalho vocacional organizado, para promover a oração constante pelas vocações, despertar vocações e acompanhar os vocacionados no discernimento vocacional? Sua paróquia tem algum seminarista, candidato ao Diaconato Permanente ou à Vida Consagrada? A paróquia está fazendo a sua parte para que, no futuro, ainda haja um padre para atendê-la? E também haja padres para enviar para outras missões e encargos na Igreja?

No domingo passado, Domingo do Bom Pastor, celebramos a jornada mundial de oração pelas vocações e o tema da Mensagem do Papa Bento XVI para esse dia  era: “o testemunho suscita vocações”. Poderíamos reagir logo: de que jeito falar em vocação sacerdotal neste tempo, quando nossa imagem está “em baixa”?! De fato, poderemos ter diante de nós um período árido de vocações ao sacerdócio; mas será isso inevitável? Penso que não. Em tempos de grandes crises, a Igreja conta também com uma especial atuação do Espírito Santo, que “renova a face da terra” e faz surgir boas e abundantes vocações, junto com iniciativas fecundas de formação sacerdotal. Pensem nos tempos confusos da baixa Idade Média e no surgimento das Ordens Mendicantes; ou nos tempos corruptos do Renascimento e da Reforma Protestante, e no surgimento de novas ordens e iniciativas missionárias com S.Inácio de Loyola e tantos outros! Pensem nos tempos do Cura de Ars, onde o Iluminismo e a Revolução Francesa tinham decretado, na prática, a erradicação da Igreja! E poderíamos continuar com os exemplos...

Mas o Papa tem razão: “o testemunho suscita vocações”. Padre faz padre; testemunhos bons e bonitos de vida sacerdotal despertam nos jovens o desejo de ser padre “como aquele padre”... Voltemos aos exemplos da história: Quantos quiseram ser padres como S.Domingos, Pregador! Como S.Roberto Bellarmino, S.Felipe Néri, S. João Bosco, o Cura de Ars, S.Pio de Pietrelcina, S.Josemaria Escrivá! E não eram tempos fáceis! E quantos outros jovens seguiram o testemunho dos bons párocos em nossas paróquias e despertaram para a vocação sacerdotal! Eu mesmo, menino ainda, quis ser padre como meu pároco, um missionário do Verbo Divino expulso da China na revolução de Mão; ele nos contava suas experiências missionárias e dava um testemunho contagiante de padre feliz, sempre presente na vida do povo, nas famílias, ao lado dos doentes e enlutados, em plena sintonia com o bispo e o papa... Outros meninos da paróquia, como eu, seguiram o mesmo caminho. Na vida de um vocacionado há sempre algum padre. Os padres são os primeiros promotores vocacionais da sua paróquia.

Nestes tempos, infelizmente, as manchetes são para os maus exemplos de padres. Não devem esses, porém, marcar o presente e o futuro da Igreja! Temos muito mais testemunhos bonitos de vida sacerdotal na Igreja! E não nos deixemos intimidar, nem desanimar. Coloquemos em evidência os bons exemplos de padres, dos padres santos da Igreja e também dos padres bem próximos a nós. E nosso próprio exemplo de fidelidade a Cristo e à Igreja fale mais alto ao povo do que as notícias sobre “outros casos”. Os jovens, que conhecem padres concretos, saberão também perceber e valorizar o testemunho edificante de seus padres.

Estimados padres, ao finalizar esta carta, desejo renovar meu apreço por todos vocês e encorajá-los na sua vida sacerdotal e na dedicação pastoral ao povo de Deus. Lembro que temos diante de nós a 109ª. Romaria Arquidiocesana a Aparecida, no domingo, 2 de maio, com a Missa às 10h. na Basílica Nacional; Clero e leigos, vamos colocar nas mãos da Virgem Mãe Aparecida nossos anseios e esperanças neste Ano Sacerdotal e do Congresso de Leigos.  No dia 12 de maio, à noite, abre-se em Brasília o Congresso Eucarístico Nacional; é bonito quando também as paróquias, aqui mesmo, acompanham o Congresso e promovem a adoração ao Santíssimo e momentos especiais de oração. No final do mês, dia 30 de maio, celebraremos os Jubileus Sacerdotais (25, 50, 60 e mais anos de ordenação presbiteral, comemorados em 2009 e 2010. Será na Catedral da Sé, às 15h. Convido todos a participarem!

Ao passar por Roma, dia 21 de abril, participei da Audiência pública do Papa na Praça de São Pedro, saudei o Papa em nome de todos e pedi sua Bênção Apostólica para a Arquidiocese, especialmente, pelo clero de São Paulo. Ele concedeu, com um sorriso. E estou transmitindo a todos vocês agora. Deus os guarde!

Cardeal Dom Odilo P. Scherer
Arcebispo de São Paulo





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