1. Uma proposta entre outras
A reflexão que agora vamos partilhar tem um caráter predominantemente pastoral. Numa Assembléia que vai refletir sobre a Palavra de Deus e o rumo das comunidades eclesiais de base, penso ser mais útil recordar alguns aspectos que, embora todos conheçam, na prática, ainda não se resolveram como gostaríamos, apesar de tantas vezes abordados. Não trago, portanto, novidades nem soluções definitivas. Trago alguns destaques para a ação evangelizadora hoje. Assumo e sistematizo algumas das idéias que vêm norteando as conversas pastorais dos últimos anos. Baseio-me, em maior escala, no Documento de Aparecida, repetindo aspectos constantes das atuais Diretrizes. Todos os temas aqui abordados se encontram nos textos referidos. A questão maior é sua efetiva passagem para o cotidiano evangelizador. São as urgências pastorais que o atual momento nos impõe. Podemos e devemos nos preocupar com todos os aspectos. Devemos, no entanto, elencar algumas urgências e unir forças para sua efetiva concretização.
Neste sentido, recordo que o ponto de partida para qualquer compreensão do momento diz respeito à não poucas vezes mencionada mudança de época pela qual nosso mundo globalizado está passando. A Igreja do Brasil, em consonância com a Conferência de Aparecida, já assumiu esta mudança de época em suas Diretrizes (DGAE 5-6, 13ss). Daí, a consciência missionária, que vem crescendo e mesmo assumindo o primeiro lugar de nossos planejamentos pastorais, como visto num breve estudo iniciado há pouco com planos de pastoral da maioria das dioceses de nosso país.
2. Mudança de época e não época nova
Importa ressaltar que não estamos ainda numa nova época. O atual momento não é um processo terminado. É, antes, uma realidade em andamento. Por isso, a mentalidade com a qual lidamos não repousa sobre pressupostos fixos, ainda que distintos de épocas anteriores. Ela repousa sobre uma perspectiva em mutação, em contínua transformação, em oscilação. Consequentemente, o perfil evangelizador necessita assumir que está dialogando com uma realidade em transformação.
Isto significa centralizar-se no que é essencial, acelerar atitudes, olhar o horizonte com amplitude maior e, acima de tudo, não temer experimentos novos. Deve reconhecer que, mais do que em épocas anteriores, as decisões pastorais tomadas hoje precisam ser sólidas o suficiente para colocar a Igreja em diálogo com esta mentalidade emergente e mutante. Precisam, contudo, ser igualmente flexíveis a ponto de, com rapidez, serem continuamente adaptadas ao novo que vai surgindo. É fazer, rever e refazer continuamente. As mudanças de época, com sua exigência de diálogo, não nos dão muito tempo para respirar e contemplar.
3. A responsabilidade da Igreja
Esta urgência, esta aceleração nos ritmos pastorais tem sua razão de ser. Acompanha a contínua mutação da realidade e reconhece que, neste acompanhar, precisa responder ao desafio de contribuir para a nova época que está para surgir. A nova época não dependerá exclusivamente da Igreja. A Igreja não determinará totalmente este novo ethos, mas ela tem a missão de contribuir para que o novo ethos possua fortes marcas do Evangelho. Num mundo plural, onde, mais do que em épocas anteriores, sentimos a força do diferente e a necessidade de dialogar o tempo todo, a Igreja é uma voz em meio a tantas e uma voz em déficit sociocultural. Os processos, já tão estudados, da crise das instituições produtoras de sentido e da transmissão destes mesmos valores via tradição, têm relativizado os usuais caminhos de presença social da Igreja a partir de seu caráter institucional e tradicional.
4. O idioma a ser usado
Sabemos que esta mudança de época vem marcada por algumas passagens. No mínimo cinco passagens devem ser consideradas, se desejamos estabelecer um idioma comum com a mentalidade que está vivendo esta mudança de época e efetivamente influenciar no surgimento de um novo ethos. As passagens são:
1) Da primazia do uno para a supervalorização do múltiplo.
2) Do estático para o movimento.
3) Da homogeneidade para a diferença.
4) Da instituição e da tradição para o indivíduo.
5) Do predomínio da transcendência para a urgência da imanência.
Estas passagens revelam estarmos diante de uma concepção de ser, no sentido ontológico do termo, distinta de épocas anteriores e que, por isso, nos pedem estabelecer uma plataforma mínima de diálogo com o múltiplo, o movimento, diferença, a individualização, a imanência. Ou assumimos, por exemplo, a liquefação (Bauman), a individualização das crenças (Hervieu-Léger), o tribalismo e as novas formas sazonais de socialização (Mafezzolli), ou não seremos capazes de dialogar com a emergente concepção de ser. E, quando falamos em concepção de ser, falamos dos valores mais profundos, lá onde exatamente a evangelização deve chegar (EN 19).
5. Os novos idiomas e nossa identidade
O desafio consiste em discernir entre aquilo que é próprio de nossa identidade e aquilo que é marca cultural de épocas anteriores. A relação entre Fé e Cultura(s) não está superada. Ao contrário, ela nos interpela continuamente, pois a Fé não paira solta no ar. Ela se concretiza em pessoas e povos e o faz exatamente através dos dados culturais, das imagens, das manifestações e formulações próprias de cada cultura. Esta é uma conseqüência do princípio da encarnação. A Fé só pode ser significativa se for vivenciada no horizonte da cultura.
Recordo estes aspectos para chamar a atenção para aquela que considero a pergunta evangelizadora central de nossos dias: e possível viver a experiência cristã em contexto multiforme, individualizante, continuamente mutante, valorizador das diferenças e imanentizador?
6. Jesus Cristo, razão de nossa esperança e sentido para a existência de toda a criação.
A resposta nós a encontramos no princípio evangelizador relembrado pelo Papa João Paulo II (NMI 29) e assumido por Aparecida: recomeçar a partir de Jesus Cristo (DA 12 e 41). A dificuldade começa no momento em que damos conteúdo a este Jesus Cristo, no momento em que destacamos, de tudo que Jesus Cristo é, um ou outro aspecto, no momento em que usamos imagens e formulamos conteúdos. Sabemos que existe uma tensão constante entre Jesus Cristo e as compreensões que temos dele, isto é, as cristologias. Estas não esgotam o mistério de Jesus Cristo, mas este mistério não se transmite sem as formulações histórico-culturais, ou seja, sem as cristologias.
Neste sentido, uma das tarefas do atual momento evangelizador consiste em identificar de que Jesus Cristo nós estamos falando. Todas as culturas e, portanto, também a contemporânea, são capazes de processar e reciclar tudo, inclusive a pessoa e a mensagem de Jesus Cristo. Não é sem sentido que o nome de Jesus Cristo apresenta, nesta mudança de época, grande variedade de significados e conseqüentes implicações existenciais. O tema Jesus nós o encontramos nos mais diversos contextos, exigindo, da parte da ação evangelizadora uma espécie de ecumenismo cristológico, no qual as diversas formas de compreender, viver e transmitir Jesus Cristo são postas em diálogo.
Assim, penso que a questão mais urgente não seja tanto Jesus em diálogo com outras religiões e propostas de sentido. Esta questão existe. É real. Não podemos negá-la. Penso, contudo, que, esta seja questão segunda. A questão primeira consiste em identificar em dar conteúdo ao que Jesus Cristo significa, nestes tempos de mobilidade, mutação e individualização. Dito de outro modo: o que, no mistério da pessoa e da mensagem de Jesus Cristo, é, ao mesmo tempo, pertinente à Tradição e relevante para a cultura de hoje?
Como resposta, penso que o atual momento da história nos convida a elevar aos primeiros lugares da compreensão sobre Jesus Cristo aquele aspecto indicado pelo Papa Bento XVI em seu Discurso Inaugural da Conferência de Aparecida e, mais tarde, incorporado ao texto das Conclusões. Este é um tempo para que se destaque a uma cristologia kenótica, construída a partir da contemplação do Cristo que, “sendo rico se fez pobre para a todos enriquecer” (2 Cr 8,9; Disc.Inaug. 3, DA 31, 392).
Esta concepção de Jesus Cristo, que, saindo de si, vai ao encontro e convida os discípulos e discípulas a fazerem o mesmo, é, ao mesmo tempo, relevante para o diálogo com a mentalidade atual e fiel à Tradição. Há de fato, no cristianismo, uma dimensão de abertura profunda e contínua ao futuro, ao diferente, ao movimento, à multiplicidade, à esperança, ao porvir, à superação do hoje, em especial do hoje tão sofrido, às vezes. O cristianismo é escatológico por natureza e escatologia significa também abertura, busca e construção do futuro.
Assim, o Jesus Cristo da kénosis remete à pastoral da kénosis, ou pastoral da alteridade. Trata-se de uma pastoral marcada, acima de tudo, pelo mergulho em busca do outro, pela imersão nesta realidade em contínuo e acelerado processo de mutação. Alguns dizem que se trata de correr atrás do prejuízo. Não sei dizer se esta avaliação mais quantitativa, decorrente, por exemplo, do contato com dados censitários e outras pesquisas que acenam para o declínio numérico dos católicos no Brasil, deve ser nosso maior motivador. É claro que a perda sempre incomoda. Afinal, entre qualidade e quantidade existe certa correlação. As primeiras comunidades mostram, entre os efeitos da vida de irmãos, o aumento no número dos fiéis (At 5,14). Penso, contudo, que os motivos maiores não sejam os da concorrência pastoral. Eles estão ligados a algo que está no cerne da identidade cristã e que outras épocas não permitiram maior destaque.
Nosso tempo é tão cheio de perplexidades. O outro e o diferente sempre nos assustam. Este é um fato humano. O outro assusta, porém, bem mais quando ele é plural, diversificado, mutante e impossível de enquadramento satisfatório. Em face de tudo isso, a força interpeladora do Evangelho estará na capacidade de vivermos e testemunharmos que o outro não é nem ameaça nem objeto para fruição. O outro é fascínio, que atrai, convida e pro-voca. Sem esta abertura kenótica à alteridade, não seremos capazes de fielmente dar as razões de nossa esperança a um mundo que, mesmo quase uma década depois do 11 de setembro, ainda se apavora com a possibilidade do inimigo estar dentro de casa; ou, então, um mundo que se torna descrente em meio a tanta desonestidade, tanta corrupção, tanto desrespeito à vida. Aliás, nem precisamos recorrer ao 11 de setembro para compreender a perplexidade trazida pelo outro que invade nossa existência. O que devemos dizer àquela senhora que nos procura afirmando que, na própria família, no local de trabalho e na vizinhança, ela é a única seguidora de Jesus Cristo, pois as pessoas com quem convive ou, na prática, são sem religião ou migraram para os empórios neoliberais de curas e prodígios?
7. Uma identidade missionária. Uma missão atualizada.
A missão é sempre a resposta da Igreja. É uma resposta que faz parte de nossa identidade mais profunda. Ela vale para os tempos de bonança e para os tempos de tempestade, para os períodos de maior plausibilidade sociocultural e para os períodos de perseguição. Nesta atual mudança de época, a passagem do institucional para o individual é, a meu ver uma das que mais determinam o perfil missionário. Há séculos, estamos acostumados a apresentar as razões de nossa esperança a partir dos critérios da tradição, da instituição e da verdade objetiva. A missão se caracteriza pela inserção numa comunidade/instituição socioculturalmente reconhecida e em vista do acolhimento de uma verdade objetiva. Estes argumentos não perderam seu valor teológico. Eles experimentam o enfraquecimento sociocultural. Já não possuem fôlego para fazer chegar a Boa Nova ao coração de pessoas e povos. Na atual mudança de época, vale bem mais o que é individualizado. Lembremo-nos das bênçãos individualizadas pedidas ao final das celebrações eucarísticas. Elas são exemplos agudos do que os estudiosos do assunto chamam de individualização das crenças, palpabilidade intra-histórica e sensitividade da presença do divino.
8. Evangelização individualizada?
Consequentemente, a missão, sem deixar de apontar para a dimensão comunitário-social da Fé, deve estar atenta para o caráter individualizante que permeia muitas das compreensões atuais da vida. Deverá, por certo, questionar a excessiva individualização, na medida em que ela se feche para a alteridade. No entanto, deverá investir com maior rapidez num perfil de ação evangelizadora capaz de acolher, ouvir, aconselhar, ajudar na recentralização do eu, trabalhar as crises e neuroses decorrentes da perda de raízes. Sem esta pastoral de cunho personalizador, experimentaremos dificuldade em dialogar com a mentalidade emergente.
Como agir pastoralmente diante, por exemplo, de uma mulher já idosa, merecedora de um pouco de paz, envolta, porém, com os bisnetos arrebanhados pelo crime organizado, preocupada com o posto de saúde que não funciona, com o sustento da família unicamente através do salário mínimo que ela recebe da Previdência Social e com a filha adicta que até a espanca no auge das crises? Como não pensar num acolhimento personalizado a um jovem, cujos pais, cooptados pela mentalidade do lucro a todo custo, se esqueceram de que paternidade é presença e este jovem, tendo buscado afeto nas drogas, vem pedir a ajuda de Jesus?
Os empórios de curas e milagres fazem sucesso porque respondem a este perfil mais personalizador, individualizante. Ali, Jesus atende ao meu pedido, eu dou meu testemunho. Não quero dizer, por certo, que nossa pastoral deva também se tornar um desses armazéns de prodígios. Quero dizer que precisaremos, com urgência, pensar bastante na questão, por exemplo, da escuta, dos grupos de recentralização do eu dilacerado pelas dores de nosso tempo, pela solidão, pela crise de identidade. Nossa ação evangelizadora é, portanto, chamada a assumir um perfil mais personalizador, capilarizador até o nível do indivíduo.
9. Um risco para o qual atentar
O problema desta atual passagem eu o vejo no grande peso que se atribui à responsabilidade individual dos agentes evangelizadores. Na medida em que o caráter institucional não possui tanta força para proteger e garantir a ação missionária, o peso está sobre cada indivíduo. Assim, mais do que em outras épocas, o que cada agente evangelizador vier a fazer afetará intensamente não apenas a ele, mas também à Igreja e, com ela, Jesus Cristo e o anúncio do Reino de Deus.
A primeira conseqüência é clara. Em tempos de hipervalorização do indivíduo, emerge concomitantemente a hipervalorização do testemunho pessoal. Se, em todos os tempos, o testemunho sempre marcou a missão, hoje, num tempo em que o respaldo institucional é débil, a postura individual é determinante.
Em segundo lugar, emerge aos primeiros lugares de nossa preocupação pastoral o fato de que todos os batizados assumam claramente a consciência evangelizadora, seja no testemunho pessoal em todos os momentos e lugares, seja no engajamento pelo anúncio e a construção do Reino de Deus. A passividade no anúncio do Evangelho não é neutra. É anti-anúncio. Daí a urgência em trabalhar para que cada batizado(a) seja um(a) efetivo(a) agente evangelizador(a).
A terceira conseqüência diz respeito às falhas pessoais. Nos contextos em que o peso maior é colocado na instituição, quando um indivíduo falha, a tendência é a de se reconhecer a santidade da instituição como garantidora da proposta. Quando o peso maior, ao contrário, é colocado no indivíduo, a tendência é a de generalizar para toda a instituição o que um indivíduo ou mesmo um conjunto de indivíduos venham a fazer. Quando o destaque é dado à instituição, erros individuais são socioculturalmente protegidos pelo guarda-chuva institucional. Quando o destaque é socioculturalmente dado ao indivíduo, erros individuais vão parar na mídia, no telejornal das vinte horas e, mais recentemente, nos tribunais civis, em busca de justiça misturada com vingança e indenização.
10. Testemunhar a força da comunidade
Na medida em que a atual sensibilidade religiosa vem migrando da adesão comunitário-institucional para o imediato das soluções intra-históricas dos problemas, Jesus é buscado como um grande taumaturgo, apto a suprir o que os mecanismos usuais para a solução dos problemas não são capazes de fazer. Esta é a noção de Jesus Cristo mais aceita pela atual mentalidade. Não a única; porém, a mais aceita.
A peculiaridade desta leitura de Jesus Cristo está no fato que ela participa do mesmo processo que rompe o vínculo entre indivíduo a instituição-comunidade. Esta ruptura atinge a relação entre Jesus Cristo, dado individual, e a Igreja (dado institucional). O vínculo se rompe por duas razões principais. De um lado, é o processo relativizador das instituições produtoras de sentido. De outro, é a incapacidade das concretizações eclesiais costumeiras manifestarem e permitirem a efetiva experiência comunitária. Mantendo-me nas Conclusões de Aparecida e em tudo que atuais Diretrizes indicam, recordo que o recomeçar a partir de Jesus Cristo implica necessariamente uma Igreja kenótica, próxima da vida das pessoas, tanto no nível da individualidade quanto no nível das pequenas comunidades em rede (DA 99e, 170ss, 309).
Pode parecer estranho que, após insistir tanto na exacerbação da individualidade como uma das características do atual período, eu venha agora a indicar que o aspecto comunitário e, mais ainda, afirmar que ele é o elo de ligação entre este atual momento e a experiência cristã. O mundo da transição, do movimento, da diversidade, pede também estabilidade. Todo ser humano precisa conviver, partilhar experiências, compreensões, linguagens, avaliações e decisões comuns. Todo ser humano necessita de pertença. O mundo individualizado e em constante mutação é também gerador de solidão, em especial nas grandes cidades. É por isso que constatamos, junto com o processo individualizador, a sede por efetivas experiências comunitárias, nas quais acolhimento, afeto e ajuda mútua podem efetivamente ser experimentados. As redes de comunidades não podem, deste modo, permanecer apenas como proposta em nossos planejamentos pastorais. Elas precisam urgentemente se tornar realidade (DA 365, DGAE 49-50, 152).
Com o passar do tempo, nossas paróquias tradicionais, sedentariamente estabelecidas, cresceram no número de residentes, os quais, por sua vez, passaram a ter fluxos de vida num raio bem mais amplo do que os limites jurisdicionais. Em conseqüência, as paróquias tendem a possibilitar efetiva experiência comunitária a apenas alguns, em geral, os mais próximos ao sacerdote. Para o restante, o que sobra é a participação nas missas e o atendimento burocrático em vista da prestação de serviços imediatos (DGAE 156). Assim como em outro período da história da Igreja, ocorreu a criação das paróquias, como forma de presença capilarizada da Igreja lá onde as pessoas estavam, penso ser este um novo momento na história da Igreja, em que se fazem necessárias a mesma coragem e boa dose de urgência para recapilarizar continuamente. Sem este recapilarizar comunitário, corremos o risco de permanecer patinando na burocratização pastoral.
É por isso que vemos crescer experiências eclesiais que, construídas ao lado ou mesmo dentro das paróquias tradicionais, manifestam-se como mais atrativas. É por isso que, nesta Assembléia, os senhores assumiram como destaque o tema das Comunidades Eclesiais de Base, buscando compreendê-las nesta nova etapa da história, de modo que, não perdendo sua identidade, sejam capazes de manifestar seu vigor num contexto sociocultural distinto daquele em que surgiram.
De fato, esta mudança de época acena para formas diferenciadas de concretizar a experiência comunitária, cada uma com seu jeito de ser, com seus carismas e seu modo de interagir com o todo sociocultural. Num mundo plural, não há como afirmar uma única concretização. Só uma Igreja com diferentes jeitos de viver a mesma Fé será capaz de dialogar relevantemente com a mentalidade que se nos apresenta hoje. Num contexto de homogeneidade cultural e religiosa, concretizações únicas funcionam, atraem. Num contexto de mobilidade, mutação contínua e diversidade, a homogeneidade de formas afasta. Não se trata do abandono do essencial, do núcleo de nossa Fé, das metas comuns, possibilitadoras da pastoral de conjunto. Trata-se de reconhecer que a diversidade de concretizações é, ao mesmo tempo, relevante para a mentalidade que se vai gerando nesta mudança de época e fiel à experiência cristã. Dois aspectos são indispensáveis para todas as concretizações. Primeiro, trata-se do efetivo reconhecimento que nenhuma concretização esgota em si a riqueza da dimensão comunitário-eclesial e que, por isso, todas são chamadas ao caminhar comum, superando as tensões da exacerbação do próprio carisma. Segundo, o enfrentamento testemunhal e interpelativo de uma mentalidade que, exacerbando o individual, gera consumismo, isolamento e exclusão.
É na força da comunidade que os discípulos e discípulas de Jesus Cristo são capazes de responder aos problemas emergentes, olhar com tranqüilidade para as angústias e relativizar o impacto das notícias, sejam quais forem. Só a força da comunidade é capaz de passar pela aporia de um momento histórico em que, por um lado, as pessoas pedem atenção, afeto, contato, mas, por outro, nós precisamos ser prudentes para não sermos mal compreendidos e levados na avalanche. Só na força da comunidade e, hoje, das pequenas comunidades, é possível superar a angústia que brota quando pensamos, por exemplo, na possibilidade de um vazio vocacional a médio prazo, quando os que hoje vivenciam fatos desabonadores chegarem à juventude, momento da opção. Estas e outras respostas só são encontradas na força da comunidade.
Esta, a meu ver, é uma das razões pelas quais sentimos crescer também a sensibilidade para os eventos de massa. Ainda que em nível diferente das comunidades, eles também fornecem senso de pertença, identidade, certeza de que há outros comungando dos mesmos ideais e projetos. Os eventos de massa possuem forte carga terapêutica diante do anonimato, da liquefação das identidades, da fragilidade de referências . Importa não concentrar esforços apenas em um destes dois pólos: rede de comunidades ou eventos de massa, esquecendo-se da mútua articulação que deve existir entre ambos, à luz de um projeto pastoral comum.
11. O amor aos pobres e a defesa da vida
O encontro com Jesus Cristo exige o encontro com a Igreja, na rede de comunidades. Estes dois aspectos, contudo, apontam para outra urgência. Em nossos dias, Jesus Cristo sozinho, sem vida de irmãos, gera consumismo religioso. Jesus Cristo na pequena comunidade, sem a abertura para outro social, corre o risco de gerar individualismo comunitário, ao estilo das ilhas de proteção. São projetos de vida, ainda que comunitários, voltados, apenas para si mesmos. Estes dois riscos, o do consumismo religioso e do individualismo grupal se resolvem somente quando existe a sensibilidade para o outro, em suas alegrias e, mais ainda, em suas dores.
A afirmação do recomeçar a partir de Jesus Cristo numa Igreja comunidade de comunidades aponta para uma espiritualidade profundamente comprometida com a vida, em todas as suas instâncias. Aponta para uma forte sensibilidade e um intenso compromisso com os pobres, nos mais diversos e variados rostos que eles venham a ter em nossos dias (DA 65, 257 e 402). O Cristo kenoticamente assumido é o Cristo da Cruz (1 Cr 1,23, Fp 2,5ss) e o Cristo da Cruz se concretiza hoje nos diversos e crescentes crucificados. Entre estes crucificados, não podemos deixar de lembrar que até mesmo o próprio planeta, como um todo, está sendo crucificado pelo egoísmo e pela ganância (Campanha da Fraternidade 2011, Fraternidade e a Vida no Planeta).
Mesmo que o preço seja o aumento no número de pedras sobre si, a Igreja não poderá recuar no seu compromisso histórico com a construção de mundo mais fraterno, solidário, justo e reconciliado. Não há como calar diante da vida ameaçada e destruída. Este compromisso está no mais íntimo do DNA da Igreja e deve se manifestar no planejamento pastoral e se manifestar como outra urgência. É claro que a Igreja sempre enfrentará reações por causa deste compromisso. Uma das maiores é, sem dúvida, o ataque, em especial, via desmoralização. O caminho não pode ser o do recuo, mas o da atenção ao telhado: em lugar do vidro, telhas mais sólidas, ainda que através de um preço interno muito sofrido.
12. Quem vai fazer tudo isso?
Uma ação evangelizadora de caráter personalizador, capilarizante, solidário, atenta às constantes mutações na realidade e apta a interagir com rapidez diante de uma mentalidade que se constrói a partir de outras concepções de espaço e tempo, exige sensibilidade ainda maior para a comunhão de carismas e ministérios. Exige, de um lado, a afirmação do ministério ordenado como o animador dos carismas e da comunhão de carismas. Exige, de outro, a sensibilidade para, na comunhão dos carismas, serviços e ministérios, fortalecer o laicato nas diversas frentes de atuação.
O ministério ordenado tem, diante de si, o convite do Ano Sacerdotal, com tudo o que este ano vem significando em termos de fidelidade de Cristo e fidelidade a Cristo. Independentemente das explicações e enfoques que se possam dar a acontecimentos recentes, o atual momento, tão mutante, tão acelerado, traz para a categoria de urgência o que temos chamado de pastoral presbiteral, o cuidado com aqueles que têm a tarefa de cuidar (cf. DGAE 95).
No que diz respeito aos chamados ministérios exercidos eclesialmente pelos batizados, não discuto aqui a importância do laicato na transformação do mundo. Chamo a atenção para os diversos ministérios intracomunitários, em virtude dos quais Aparecida bendiz a Deus (DA 99c).
Contamos com imenso número de pessoas generosas, dedicadas, mártires cotidianas e silenciosas da ação evangelizadora. Não fosse esta vivência concreta do batismo, no serviço dedicado à Evangelização, serviço vivido das mais diversas formas, não teríamos conseguido muito do que conseguimos. A novidade trazida por este tempo de forte personalização e capilarização é que precisamos intensificar e mesmo estabelecer alguns ministérios urgentes. São ministérios ligados ao acolhimento e à missão. No campo do acolhimento personalizador, urge catalisar os serviços ou ministérios de escuta, intercessão, acolhida ou outro qualquer nome que possam ter. Muitos grupos e comunidades já fazem isso. É preciso acelerar a formação, estabelecer critérios, partilhar experiências. Numa Igreja que se preocupa em recomeçar a partir de Jesus Cristo, como não pensar em intensificar bem mais o ministério dos introdutores, como indicado pelo RICA, ainda que sob diversas formas?
No campo da missão, por que não estimular ainda mais o que Aparecida chama de animadores de comunidade e assembléia, aptos a chegarem lá onde, sem esta força de trabalho, não se consegue chegar? (cf DGAE 173)
Em todo este processo, penso ser importante o ministério da Palavra (DA 99a.c, 205, 211, 248), entendido em sentido amplo, atuando no campo específico da pregação e das celebrações (DA 253; DGAE 72), mas também na formação bíblica, como guias para a Leitura Orante e em tudo mais que os senhores vão refletir no tema central desta Assembléia.
13. O que fica?
Ao terminar, peço desculpas aos senhores por repetir aspectos que todos conhecemos. Fiz isso não apenas por acreditarque não bastam discursos para que uma realidade se transforme, mas também por considerar que, em momentos de intensa mobilidade, é preciso focar a atenção nos pontos principais.
Em tudo isso, os senhores perceberam que não apresentei novidade, pois, de fato, não se trata de inventar a roda. Busquei apenas chamar a atenção para aquilo que, em meio a tanta riqueza de nossa ação evangelizadora, deve merecer destaque. Por isso, usei exageradamente a palavra urgência.
O fato é que as mudanças de época pedem um reconfigurar geral, reconfigurar nos fundamentos. É claro que não se trata de colocar outro fundamento que não seja Jesus Cristo. Trata-se de pensar nas bases históricas, socioculturais de nossa ação evangelizadora, chamada, em nossos dias, a ser cada vez mais iniciática (apresentar e reapresentar continuamente Jesus Cristo, e o Cristo da kénosis até a cruz), personalizadora, capilarizante, solidária e ministerial. Se estas urgências forem na prática enfrentadas, poderemos efetivamente contribuir para o novo ethos que precisa surgir.
Não é documento oficial da CNBB.
Pe. Joel Portella Amado