Caro Presidente da CNBB!
Meus irmãos bispos, especialmente meus irmãos bispos eméritos!
Queridos irmãos sacerdotes e diáconos!
Meus irmãos e minhas irmãs!
Prezados telespectadores!
No Evangelho proclamado, Jesus se compara a uma videira. A videira era símbolo do povo judaico, videira de Deus. Ao comparar-se a uma videira, Jesus torna-a símbolo de sua realidade, de sua missão: fundador de um novo povo. Jesus se diz a verdadeira videira. Acrescenta, no entanto, que seu Pai é o agricultor.
O fruto dos ramos é a santidade de uma vida, cujos frutos são especialmente obras de amor. Quem é inserido em Cristo, como o ramo à videira, deve produzir frutos de amor. Daí que, não basta uma fé teórica, mas é necessário uma fé viva, que se traduza em obras de amor. E para dar frutos de amor é preciso que o discípulo de Jesus permaneça unido a ele. Quem não ama está desligado de Cristo.
Mas, não somos sozinhos. Ninguém é só. Ser pessoa é ser com os outros e para os outros. O discípulo de Jesus, particularmente, jamais é só. Está unido aos outros na maravilhosa realidade da comunhão dos santos. Os galhos na videira se unem uns aos outros no tronco. Estamos unidos uns aos outros em Cristo. Quem não está unido a ele não produz frutos de amor. É condenado.
No entanto, se permanecemos unidos a ele, se somos fiéis aos seus ensinamentos e aos seus mandamentos, além de produzirmos frutos de amor, tudo o que pedirmos a Ele será atendido. É a eficácia da prece.
Por fim, nota Jesus, o Pai é glorificado pelos frutos abundantes de seus discípulos. Frutos de amor e de apostolado. Assim, em nosso tempo, o Pai foi glorificado por grandes discípulos de Jesus, que deram testemunho de um amor heróico, como: São Maximiliano Kolb, Madre Teresa de Calcutá, Pe. Pio, João Paulo II. De João Paulo II afirmou recentemente nosso Papa Bento XVI: “Toda sua vida se desenrolou no sinal da caridade, da capacidade de se doar de modo generoso, sem reservas, sem medida e sem cálculo... Porque se aproximou cada vez mais de Deus, pôde tornar-se companheiro de viagem para o homem de hoje, espalhando no mundo o perfume do Amor de Deus”.
Neles Deus operou maravilhas, como aconteceu com Paulo e Barnabé, ao atravessarem a Fenícia e a Samaria, testemunhando Jesus Cristo morto e ressuscitado e atraindo para Jesus numerosos pagãos (cf At 15,3-5), como falam os Atos dos Apóstolos, que acabamos de ouvir.
Caros irmãos no episcopado e no ministério sacerdotal, caros fiéis!
Deus opera sempre maravilhas, quando amamos verdadeiramente os outros. Porque nosso amor será o reflexo de nosso encontro com Deus que é amor (Jo 1,4,8), como diz São João, numa das mais profundas revelações do Novo Testamento. E haveremos de transformar profundamente a sociedade. Pois, é por pequeninos gestos de amor, de generosidade, que a sociedade se humaniza, se torna fraterna e justa. Gestos que não custam materialmente nada, mas implicam numa profunda conversão da mente e do coração com repercussão em toda a vida humana e indiretamente nas próprias estruturas da sociedade. Ao contrário, como escrevia Jacques Maritain, “sem o amor e a caridade, o homem transforma em grande mal tudo o que há de melhor”. Comprova-o a história de nosso tempo. História de ódio, sofrimento, morte e desprezo pela vida humana.
Porque o homem não enxergou no outro um irmão, mas um objeto, um competidor, e não uma pessoa, um tu. É preciso sempre mais proclamar e testemunhar a eficácia do amor para a construção de uma nova sociedade. O grande equívoco dos seguidores de Karl Marx é terem acreditado que o amor é ineficaz para estimular e animar a transformação das estruturas sociais injustas.
Permitam-me agora dois rápidos agradecimentos e um duplo pedido, que ouso fazê-lo em nome dos bispos eméritos.
Primeiro, um agradecimento a Deus por nossa longa vida. E a vida é sempre bela, mesmo em seu ocaso. Mesmo quando marcada pela dor e por grandes limitações. Como diz João Paulo II: “O dom da vida, apesar da fadiga e dor que a caracteriza, é bela e preciosa demais para que dela nos cansemos”. E notava que o outono da vida não é só um crepúsculo, mas “a época privilegiada daquela sabedoria que é fruto da experiência, porque o tempo é um grande mestre”.
Ademais, nossa vida de eméritos não deixa de ser um caminhar veloz para a pátria celestial. Como escrevia o Venerável João Paulo II: “Se a vida é uma peregrinação em direção à pátria celestial, a velhice é o tempo no qual se olha mais naturalmente para o limiar da eternidade”.
O segundo agradecimento se volta para os bispos residenciais, que nos acolhem em suas dioceses nos últimos anos de nossa existência nesta terra. Agradecimento pela bondade com que nos acolhem, pela atenção que têm para conosco, malgrado nossas grandes limitações. Agradecimento porque não nos vêem como um obstáculo ao seu pastoreio, inevitavelmente marcado pela personalidade de cada um, por sua visão pastoral e por novas exigências pastorais de suas dioceses.
Agradecimento acompanhado de um pedido de perdão, se, por zelo ou imprudência, tenhamos sido uma pedra no caminho pastoral de nossos irmãos em sua missão pastoral e não uma flor, como é cada vida humana, mesmo física e intelectualmente limitada, uma flor que um dia desabrochou e hoje são pétalas, que caem uma por uma, silenciosamente.
Tenhamos a humildade, nós eméritos, de reconhecer que em nosso pastoreio nem tudo foi perfeito. Houve certamente falhas em nossa ação pastoral e em nosso comportamento humano. Cabe aos nossos sucessores perfazer o que deixamos de inacabado ou imperfeito. Mas, que eles não deixem de reconhecer o que fizemos, por mais humildes que tenham sido nossos passos na construção do Reino de Deus. Gostaríamos que nossa vida de eméritos fosse uma prece contínua, para que nossos sucessores sejam bem sucedidos em seu ministério pastoral.
Rezem também por nós, para que os últimos anos, meses ou dias de nossa vida terrena sejam marcados pelo amor a Deus e o amor aos outros. Pois, o amor-caridade vem de Deus e a ele conduz, nos transforma e transforma os outros. Como escrevia em seus versos o poeta Augusto Frederico Schmidt: “Amar abre os corações e os ilumina”. Rezem por nós, neste crepúsculo da vida, para que seja maravilhoso nosso encontro definitivo com o Amor Supremo e seu Filho, nosso Senhor e Redentor, unido à sua Mãe Santíssima.
Fica conosco, Senhor, neste anoitecer da vida terrena! Assim seja!
Cardeal José Freire Falcão